Os Black Lips prometiam um concerto selvagem e alucinado. Todos os sabiam e desejavam, mas quem os viu no Porto guardará sensações múltiplas por tempo indeterminado. O grupo americano foi fiel às suas características, até as terá exponenciado, ao abrigo de um acolhedor Barco Gandufe. Pequeno, à pinha com aproximadamente 200 espectadores, ambiente quente, a roçar o eufórico, e bem temperado por figuras em grande forma, o Porto-Rio conheceu uma segunda-feira de corpo cheio.
Dos Black Lips no Porto-Rio muito já se terá falado. A noite foi de excessos, foi concerteza, mas não de todos aqueles minuciosamente descritos e amplamente extrapolados na página da Internet do Blitz, aludindo à falta de condições para a realização do concerto. Disparate grande e observações desconexas a juntar a um testemunho que mais pareceu encomendado, pois guitarras a voar ninguém as viu, ou foi visão turva influenciada por substâncias que não só a banda consumiu. Tudo sem contextualização possível com a atmosfera que se respirou no Porto-Rio, extremamente efervescente, com o público a corresponder a preceito a mais esta excelente iniciativa da Lovers & Lollypops. Em palco, os Black Lips provocaram e provaram o caos à primeira música, mas, afinal, é mesmo esse o seu instinto, que os leva a uma adorável busca pela desordem. Na assistência muitos também se sentiram motivados a esticar a corda, e, de forma previsível, o espírito mosh instalou-se e apoderou-se de uma enérgica linha da frente, em clima de manifesta e contagiante euforia. Alguns estiveram sempre bem mais acelerados, sucederam-se invasões de palco, mergulhos para o público, por vezes mal calculados. Mas, bem vistas as coisas, os Black Lips estavam unicamente a saborear algo do que faz parte da sua receita para a festa, e a esses condimentos, a banda de Atlanta contribuiu com mais excelência, servindo aos fãs uns bons tragos de vinho tinto. «Oh Katrina» arrancou bem cedo e levantou autêntico furação no Barco Gandufe, que ganhou força através de um caótico desfile dos principais temas, com exposição privilegiada para o mais recente álbum - Good Bad Not Evil - até um fecho acidentado em «Juvenile» altura em que se deu a queda aparatosa na bateria do dito elemento do público mais agitado, isto no seguimento de um assalto ao palco e ao controlo de um microfone. A confusão veio logo a seguir e a lamentar há, sobretudo, a fractura de um dedo por parte de um espectador, atacado sem razão alguma pelo baterista dos Black Lips. Momento negro que deve ser secundarizado na actuação do quarteto de Atlanta, obreiro de um apoteótico hino ao rock'n'roll mais selvagem.
Antes da entrada em cena dos Black Lips, o palco do Porto-Rio teve em acção os Sizo, banda do Porto cada vez mais lançada para novos voos, após apresentação do álbum - «Nice to Miss You». E o desempenho foi simplesmente irresistível, embora tenham faltado mentes dispostas a fazer barulho e corpos desafiados a causar reboliço. Mas o rock dos Sizo, carregado de efeitos e dotado de alma própria, esteve à altura da ocasião, tendo o concerto decorrido sem mácula.
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