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Paredes de Coura: Incendiários Gogol Bordello no ano de Sonic Youth
Mais um ano passado sobre o Festival Paredes de Coura, convertido na máxima referência de Verão do panorama festivaleiro português, reunindo nomes de superior envergadura ao Sudoeste, beneficiando simultaneamente da interrupção brusca de Vilar de Mouros, 2007 comprovou o êxito das apostas em novos valores, marca característica do evento, mas será, mais do que tudo, lembrado pelo enorme concerto oferecido pelos Gogol Bordello, bem como pela excelência do seu fecho, ao som dos supremos Sonic Youth, que foram de uma grandeza sublime na sua passagem por Paredes de Coura. O festival voltou a ser amaldiçoado pelo mau tempo, a chuva chegou e não mais largou a noite de terça-feira, fazendo dispersar o público naquele que terá sido o dia mais forte do cartaz, com méritos para Gogol Bordello, Mão Morta, New York Dolls e Dinossaur Jr.

Pano fechado sobre Paredes de Coura 2007, com a certeza que o festival regressará em 2008 com novas datas no calendário (entre 30 de Julho e 3 de Agosto), opção mais ou menos discutível atendendo à proximidade que poderá ter com o Sudoeste e com um hipotético ressurgimento de Vilar de Mouros, além de o fazer coincidir com o boom de festivais gratuitos que desabrocham na Galiza. Circunstâncias a analisar...

Sonic Youth - Kim Gordon
Sonic Youth - Kim Gordon
 

De 2007 importa à cabeça recordar e fazer recordar a magnifica e esplendorosa actuação dos Sonic Youth, em grande forma pese mais de 25 anos de carreira em prol do melhor indie rock universal, que segue intemporal, mágico e arrebatador, ao som de álbuns seminais como «Daydream Nation» ou «Experimental Jet Set, Trash and No Star», ou o mais recente «Rather Ripped», espantando e cativando o desempenho da vocalista e baixista Kim Gordon, deveras surpreendente pela energia revelada a dançar e a rodopiar. Mais um final com carácter nostálgico em Paredes de Coura, bastando recuar a 2005 - Nick Cave ou 2006 - Bauhaus. Um luxo para quem pôde assistir e um prémio inestimável para os mais acérrimos admiradores dos Sonic Youth. Esses multiplicaram-se por todo o anfiteatro natural de Coura - cerca  de 20 mil pessoas estiveram presentes na noite derradeira do festival - e não deixaram de vincar toda a sintonia perante a divindade instrumental representada em palco pelo grupo de Nova Iorque.

O último dia de Paredes de Coura guarda dentro das melhores memórias os Sonic Youth mas também deixa registo de peso para o sucesso brasileiro de Cansei de Ser Sexy. Diversão apurada por esta altura na parte baixa do recinto, balões e confetis a voar, dança quase ordenada pelas coreografias ensinadas pela vocalista Lovefoxx, incapazes, todavia, de disfarçar um certo grau de limitações criativas. Gritos e refrões banais não chegam para convencer, embora as batidas electrónicas ajudem a criar ambiente.

Antes desta altura, já tinham passado pelo palco as Electrelane, Sunshine Underground e Peter, Bjorn & John, grupos para todas as tendências, mas que demonstraram facetas circunscritas sem deslumbrarem. O quarteto feminino Electrelane desfilou de forma plácida bons momentos de pós-rock, aquecendo a sua actuação com um teclado abrasivo. Em seguida vieram os britânicos Sunshine Underground, que embarcaram numa proposta de rock mais dançável, a querer recuperar os ritmos de Radio 4, The Rapture ou LCD Soundsytem, a qual terminou sem que tenham introduzido qualquer dado novo, repetindo fórmulas gastas, não obstante tenham merecido excelente acolhimento por parte da generalidade do público. E de Peter, Bjorn & John até se pode falar de uma actuação sofisticada. O trio sueco, desfalcado de John, tem os seus requintes, pelo menos na arte do assobio, e até pode trilhar caminho seguro dentro do pop de carácter mais singelo. Sem ser objectivo dar consolo ao que é nacional, uma palavra de apreço merecem os Linda Martini, que justificaram a aposta da organização para abrirem o palco principal. Na noite de Sonic Youth, as honras foram bem entregues a este grupo de Lisboa, que forneceu óptimos indicadores da sua qualidade.

Gogol Bordello - Eugene Hütz
Gogol Bordello - Eugene Hütz
 

Na terça-feira (dia 14) a música foi outra, e só a chuva baralhou os planos de muitos. A partir das 19h00 já se entrara no clima de festa com o espectáculo único de Gogol Bordello, que terá sido, porventura, o concerto do festival, pelo inesperado da ocasião, pela adesão recebida, e pelo final arrasador, em grande parte por acção do enérgico vocalista Eugene Hütz. Frenesim balcânico doseado com uma certa desenvoltura punk e requintado por finos recortes de cabaret. Revolução instalada em Paredes de Coura segundo a proposta musical dos Gogol Bordello, participada por uma incrível multidão que aderiu, pulou e dançou neste concerto prematuro do festival, ajudando a registar um momento grandioso, pois em edições anteriores não há memória de tanto rebuliço logo pelas 19h00. Foi o verdadeiro festim, ao que se seguiu uma actuação interessante e alegre dos australianos Architecture in Helsinki, tão preciosos quanto ilógicos, prejudicados apenas pela fasquia demasiado alta imposta pelos ritmos gypsy-punk dos Gogol Bordello, que incendiaram o ambiente na Praia Fluvial do Tabuão.

A partir das 21h00, o rock tomou de assalto o palco principal de Paredes de Coura, com a entrada em cena dos Mão Morta, que percorreram a enorme carreira, deixando antes do hino «Budapeste» uma mensagem enigmática, a dar conta de um adeus ao rock'n'roll, que terá, sobretudo, servido para gerar confusão e inconformismo no público. Adolfo Luxúria Canibal teve igual a si mesmo e protagonizou um momento de admirável inspiração literária...«Se fosse Papa diria que estais com uma auréola muito estranha. Milagrosa. Apesar da chuva e da lama, conseguis levantar poeira», invocou a dado momento. Após a actuação do grupo de Braga, subiram ao palco os New York Dolls, com Sylvain Sylvain na guitarra e David Johansen na voz, elementos originais do emblemático grupo que explodiu nos anos 70 com temas marcantes como «Personality Crisis», «Pills» ou «Frankenstein», reavivados em Coura, assim como outras músicas imponentes da carreira. O concerto dos New York Dolls foi uma lição de rock'n'roll das antigas num festival marcadamente mais aberto às novas tendências indie e pop. Memorável foi também a actuação dos Dinossaur Jr., pese o início algo tardio. Este trio disparou um repertório brutal, levantando gratas recordações sobre o seu luminoso passado. Foi uma descarga do melhor rock independente, pautado por uma distorção sempre nos limites.

Blasted Mechanism
Blasted Mechanism
 

E para o fim fica a segunda-feira, dia de abertura oficial de Paredes de Coura. Registo relegado para o final por duas razões. À parte do concerto dos Baby Shambles não tivemos oportunidade de assistir a qualquer outro, mas também porque, à distância, esta noite foi sempre vista como a mais pobre da programação. E acabou mesmo por o ser, sem sombra de dúvida. Os Baby Shambles comprovaram que não eram aposta digna para encerrar uma noite e ofereceram um concerto indisciplinado, irregular, com raros momentos altos, exclusivos dos momentos em que Pete Doherty resgatava os temas da época dos The Libertines. Insuficiente, muito insuficiente, pese o respeito que o senhor merece por ter vindo de comboio para Portugal. Antes, atendendo aos relatos que nos foram veiculados por pessoas da mais elementar confiança, foram os Blasted Mechanism que mais impressionaram, graças ao seu sempre vistoso espectáculo cénico acompanhado de sons de outra galáxia. Não surpreende...Referência também no primeiro dia ao cancelamento do concerto dos suecos Mando Diao.

6PM
6PM
 

Levando agora um olhar à novidade do palco Ibero Sounds, a Audiência Zero tem mesmo que destacar mais um doce momento protagonizado pelos 6PM. Este grupo galego que já passou pelo Auditório da Biblioteca Municipal de Barcelos, pela Casa da Música e vai ainda em Novembro ao Centro Cultural de Vila Flor, em Guimarães, e Mercado Negro, em Aveiro, foi também convidado a abrilhantar o Festival Paredes de Coura, e reforçou todos os seus créditos, dando mais uma excelente exposição ao seu disco de estreia «Far from Perfect». Foi basicamente um concerto para interessados na música apresentada, prejudicado pelo início da actuação dos Spoon no palco principal, o que acabou por ser resultado do arrastamento do concerto de Mundo Cão, que alongaram excessivamente o seu encore no Ibero Sounds, remetendo os 6PM à ingrata situação de verem o seu espectáculo abalado pelas correntes sonoras projectadas pelos Spoon. Os Mundo Cão, por sua vez, ofereceram um concerto sólido mas estão longe de se conseguir dissociar das influências dos Ornatos Violeta. Por este palco passaram ainda no dia seguinte os Born a Lion, que soltaram em Coura todo o seu blues rock libertador e devastador, conduzidos por uma bateria intratável.

Daquilo que nos foi possível assistir este ano em Paredes de Coura não resta muito mais por dizer. A chuva na terça-feira desligou-nos do after hours, enquanto quarta-feira tivemos um regresso apressado por afazeres de trabalho. Ainda deu para cheirar um pouco dos U-Clic, que estavam a prometer. A organização revelou-se bem mais eficiente e atenta que em 2006. Ficamos, agora, à espera das boas surpresas para 2008. E já agora, fica a recomendação. Os Gogol Bordello merecem nova oportunidade e a horas de serem reis da festa.

Público durante concerto de Mão Morta
Público durante concerto de Mão Morta
 

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Pedro Cadima   
 
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