O espaço Maus Hábitos no Porto recebe no proximo dia 30 de Março uma exposição individual multimédia da autora Sílvia Pinto - "Encruzilhada". Encruzilhada é uma exposição constituída por sete trabalhos - Nach Jerusalem, Vídeo-instalação 2001-06; A Pedra de Tropeço, Vídeo 2005-6; A Remissão do Tempo, Instalaçção 2001-6; After the Ball, Vídeo 2001-6; A Sacudidela, Vídeo 2005-6; A Preparação do Caminho, Vídeo 2005-6 e A Reposição, Diaporama 2006. A exposição terá a duração de um mês e uma semana, de quarta feira a domingo, das 22h às 02h e de segunda a sexta feira das 11h às 19h com aviso prévio.
Uma encruzilhada é um cruzamento de diferentes vias mas também, da biologia, um cruzamento de diferentes seres, com vista ao melhoramento da espécie. Este ponto de intersecção onde se atravessam os caminhos e os seres, é o ponto em que eles se revelam e se tornam visíveis. Sem o cruzamento, eles não se conheceriam. “Em direcção a Jerusalem”, diz-nos o primeiro trabalho, cai-se na “pedra de tropeço”, conta-nos o segundo… durante “a remissão do tempo” surgem os outros trabalhos – “prepara-se o caminho”, “sacode-se a toalha”, como que sacudindo a vida, e “depois da bola”… “repõe-se a mesa” e colhem-se os frutos. Em muitas línguas antigas, as noções de poesia, eloquência, informação e profecia estão intimamente ligadas. Efectivamente, este ponto de intersecção é simultaneamente uma coordenada espacial e um cruzamento de dimensões temporais – pára-se, escuta-se e olha-se, ensina-se às crianças. Pára-se, depois de um caminho já percorrido, que muitas vezes nem damos conta de ter escolhido. Queda, remissão, e preparação são termos que claramente se referem à ideia de paragem, de resgate e de passagem. Há um tempo da melancolia que dilacera o espaço e o tempo - multiplica o primeiro e suspende o segundo - que é o tempo da perda, da demora e do arrastamento do intelecto; há outro tempo que é o tempo da renovação, da iniciativa e da criação, que se sobrepõe à desfragmentação da vontade e nos coloca acima do impossível. O anúncio “After the Ball” leva-nos a um “depois” cheio de esperança que se materializa na “Reposição”.
Nach Jerusalem, Vídeo-instalação 2001-06
Nach Jerusalem é constituído por várias cadeiras dispostas costas contra costas, prontas para o jogo que as crianças conhecem, e um vídeo que capta o espaço da corrida em perspectiva subjectiva. O jogo consiste em correr até que um sinal indique o momento de paragem e cada jogador tente rapidamente ocupar uma cadeira, ficando sempre um jogador excluído por falta de uma cadeira. As cadeiras são diferentes - uma cadeira de escritório, um banco, uma cadeira forrada, uma cadeira de baloiço, uma cadeira de rodas... Realizado e apresentado diversas vezes em 2001, este trabalho foi reformulado e é reproposto pela primeira vez com o seu título original, que lhe confere um sentido inteiramente distinto dos respectivos trabalhos intitulados Dança das Cadeiras, Danza delle Sedie ou Musical Chairs. Nach Jerusalem é o título alemão deste jogo e significa em direcção à terra prometida. Do dicionário dos símbolos, terra prometida é o equivalente espacial de paz e perfeição na dimensão temporal. Ao contrário de se concentrar sobre a corrida e os seus mecanismos, sobre o momento da expectativa que precede o sucesso e a derrota… com que se olhava o “velho” trabalho, nesta “direcção a Jerusalem” podemos ir mais além. Os “acidentes” deste percurso vorticoso, caracterizados pelas várias cadeiras e pelo anúncio da queda na “pedra de tropeço”, deixam de ser vistos como focos negativos de um destino trágico para passarem a ser provas espirituais que levam da noite escura à conversão da alma - etapas de uma viagem gloriosa, onde a verdadeira glória é um atributo exclusivo de Deus.
A Pedra de Tropeço, Vídeo 2005-6
A Pedra de Tropeço é uma montagem de slides e vídeo articulados em três momentos – no primeiro conjunto, os slides são espaçados no tempo, no segundo, sucedem-se mais rapidamente e diminui o espaço da acção que falta à imagem; no final, o tempo do vídeo corresponde ao tempo real. Em termos narrativos, um homem e uma mulher tropeçam em tempos diferentes após uma troca de olhares e um esboçar de sorrisos. Depois da queda de cada um deles, os tempos sobrepõem-se – o homem cai em simultâneo com a mulher, quase em cima dela, como que a empurrá-la. No fim, vê-se a mulher a afastar-se e a seguir sozinha em frente. Este trabalho utiliza uma expressão bíblica para refletir acerca dos encontros e desencontros - “pedra de tropeço” – que indica o mesmo que escândalo, isto é, todo o acto que produz ofensa, melindre, vergonha ou indignação, e pode induzir a outrem ao erro, ao pecado ou ao mau procedimento. Não sabemos o desfecho destas quedas. O que sabemos é que o homem e a mulher quendo se voltam a cruzar, e a sorrir… (depois deste embate no fundamento bíblico), já não param nem tropeçam.
A Remissão do Tempo, Instalaçção 2001-6
Nesta instalação, uma parede inteira é preenchida com maços de papel que parecem cartas, anónimas, muito arrumadinhas… Esta enorme quantidade deste material epistolar, amarrado e envelhecido, parece ter sido escrito para a remissão do tempo, diz-nos o título. Remissão de remir, do lat. redimere, significa “resgatar um cativo”, mas também indemnizar; adquirir de novo; tornar esquecido; sanar; salvar; livrar das penas do Inferno… e pagar as dívidas – dívidas que se pagam com o tempo. O tempo da melancolia, da demora e do arrastamento do intelecto; e não o outro, da renovação, da iniciativa e da criação, que se sobrepõe à desfragmentação da vontade e nos coloca acima do impossível. Por agora, somos obrigados a permanecer neste tempo… e a atravessá-lo. Ignoramos o teor comunicativo destas cartas. Pelo seu silêncio, elas são como croché, cresceram pela repetição, pela paciência e pela hipnose do ser lavor.
After the Ball, Vídeo 2001-6
O vídeo After the Ball é uma espécie de anunciação narrativa na qual um conjunto de bolas de sabão se relacionam com dois personagens - um homem de olhos fechados e um rosto feminino de papel. As bolas metamorfoseiam-se ao longo de um longo percurso, acompanhado por uma voz feminina e musicado passo a passo. O vídeo começa com a voz de uma mãe a dar de comer ao bebé mas por trás de um texto aparentemente relacionado com colheres e papa, a voz incentiva a criança a seguir as bolas de sabão e a elevar-se numa heróica perseguição que assume diversas conotações, entre as quais a de apropriação. A criança apropria-se das bolas, as bolas apropriam-se dos personagens - fundem-se visceralmente, envolvem-nos em cápsulas, ou gota de sangue. As bolas assumem diversos ambientes – são pequeninas e nítidas, leves e ingénuas, brincalhonas… ou, gigantes, negras e assustadoras! Da mesma forma, a voz da consciência transforma-se em dúplo; de mãe motivadora e fiel desliza para negociante instigadora e malígna. A joaninha está aprisionada com as pintas de fora; as bolas continuam… impossível metamorfosear-se até ao fim, e dilatar-se até à eternidade. A bola funde-se com a cabeça da menina de papel irradiando luz. A joaninha das pintas de fora tranforma-se, como nos contos de fada, numa verdadeira joaninha, com asas para voar.
A Sacudidela, Vídeo 2005-6
Sacudir a vida e dançar ao som do vento e ao som de Lhasa, é o conteúdo deste vídeo. Desembrulham-se fotografias rasgadas e sacodem-se ao vento. Rasgam-se ao vento, atira-se ao vento, sacode-se e rasgam-se, as vestes, ao vento… A grande sacudidela continua perseverante, como uma grande onda do mar. A música, triste mas heróica, levanta-se, gemendo… e sacode!
A Preparação do Caminho, Vídeo 2005-6
Este caminho extende-se em ambientes exteriores e interiores. No exterior, é agreste, veloz, abstracto e confuso – como numa perseguição, é-se surpreendido por estranhos golpes de galhos e cortes de troncos de árvores – não adianta correr! Em ambientes interiores, o caminho incorpora uma toalha que ora se agita nervosamente, ora se deixa alisar por um ferro de engomar… trouxe os ventos para dentro de casa. O caminho é preparado quase ritualisticamente, com banhos e podas. A areia agita-se, cobrem-se covas, atravessa-se o mato, saltam-se o altos. As gaivotas golpeiam o ar com rasgos e gritos, numa incessante procura de um pouco mais de céu azul.
A Reposição, Diaporama 2006
Depois de sacudida a toalha, depois de lavada e passada a ferro, a toalha está pronta para ser posta na mesa. A reposição é uma sucessão de mesas postas onde os objectos dispostos se deslocam, como que dançando, e conversam. Mais próximas ou mais afastadas, mais luminosas ou mais tristes, são mesas postas amorosamente, com detalhes e flores, e com uma oliveira de fundo; são frutos que se prostam, e se movem, com cores ardentes. São frutos colhidos de fresco, onde a eternidade parece ter tocado.
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