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Foi no passado mês de Março que o realizador Miguel Clara Vasconcelos representou Portugal no Play-Doc - interessante Festival de Documentário realizado na fronteiriça cidade de Tui. O realizador e argumentista luso trouxe à Galiza o documentário Boxe com o qual competiu na secção "Atlântico", vertente do Festival dedicada à produção de trabalhos cinematográficos de expressão portuguesa e galega. Embora não tendo vencido em Tui, o documentário Boxe apresenta um percurso marcado por várias distinções, entre as quais se destaca o facto de ter sido considerada melhor curta-metragem portuguesa na 13ª edição do Festival Internacional de Curtas de Vila de Conde (2005), um dos mais importantes do género em Portugal. Numa entrevista concedida à Audiência Zero, Miguel Clara Vasconcelos explicou as motivações que o levaram a realizar Boxe, dentro do desejo de concluir uma trilogia assente no tema "força", na sua relação mais íntima com Portugal.
Como apresentas este documentário intitulado Boxe, recentemente exibido no Festival Play-Doc, de Tui?
Conheci um pouco por acaso, em Lisboa, os organizadores, Anxo e Sara, e voltei a encontrá-los em Vila do Conde, quando ganhei o prémio. Tinha-lhes enviado um trabalho de escola para a primeira edição, mas foi recusado. Desta vez aceitaram e fiquei muito contente. Acho que Play-doc é um Festival rigoroso e gostei muito de participar.
Que tipo de interesse ou fascínio estão relacionados com a abordagem a este tema?
O documento Boxe faz parte de uma trilogia que pretendo realizar sobre Portugal e está subordinado ao tema da força (o próximo trata da espiritualidade e o terceiro ainda não posso revelar...) Mas é também um documentário sobre o universo underground do boxe, actualmente. Gosto de vidas duplas e gosto da duplicidade do real. Nada é apenas o que parece e fui tendo muitas surpresas ao longo dos 6 meses que durou esse trabalho.
Por onde tem passado o filme e reacções gerais ao mesmo?
De um modo geral, o filme tem sido bem recebido. Nos Encontros do Cinema Português, em Coimbra, acabou de ganhar o prémio melhor documentário, na categoria de vídeo. Os prémios que recebi já pagaram o investimento e isso deixa-me bastante feliz porque fiz este filme sem apoios financeiros. Em todo o caso, acho que é um filme mais apreciado no norte do que no sul de Portugal.
Como decorreu esta participação no Play-Doc?
Estive durante quase todo o festival. Eu paguei as viagens e eles a estadia. A alimentação foi a meias. Aproveitiei para falar com vários realizadores e passear com a minha namorada. Foi muito agradável.
Já conhecias o Festival? Que impressões podes registar deste evento num ponto geográfico tão colado a Portugal?
É um festival muito interessante e muito bem realizado. Acho que ainda não tiraram todo o proveito do facto de estarem na fronteira. Faltou presença de mais portugueses, mas havia vários filmes em língua portuguesa. Tem de haver mais namoro entre os dois lados da fronteira.
Como avalias a qualidade da programação e a adesão que este Play-Doc mereceu?
Volto a repetir. O festival é muito bom. Mas outros festivais têm de encontrar a sua própria fórmula. Um conceito bem definido e bem concretizado é o que atrai mais o público. Filmes todos podemos ver em casa. Um festival é um universo de maior inteligência colectiva partilhada entre organizadores e público.
Impacto do teu trabalho no Play-Doc?
Razoável. Passou às 12h00 de um domingo e isso não ajudou muito. Mas dei-me a cohecer e espero voltar à Galiza.
Como está o género documental em Portugal?
Bastante bem. Acabei de escrever um artigo para uma revista sobre isso mesmo. Julgo que o documentário se está a tornar num desporto radical, quem tiver uma boa câmara será realizador e quem tiver um bom computador será produtor. Há falta de real na cultura portuguesa e o documentário vem resgatar essa lacuna.
Existe algum trabalho ou projecto para arrancar ou apresentar a breve prazo?
Sim, estou a trabalhar sobre um novo documentário, que trata da Espiritualidade em Portugal.
Entretanto espero ter uma curta de ficção aí a rodar pelos festivais.
Em que ponto encontras a relação cultural entre Galiza e Portugal? Sentiste, por exemplo, que foi eficiente a transmissão da mensagem do Play-Doc em Portugal?
Como disse, tem de haver mais namoro de parte a parte. O coração tem razões que a razão desconhce e é pelo coração que se hão-de fazer muitos e bons projectos fronteiriços. Entretanto, tudo está num estado embrionário que, para mim, é o melhor momento, pois é altura em que tudo é ainda possível.
Peço-te em jeito final uma opinião ao projecto da Audiência Zero e, em particular, ao implementado Eixo Norte-Galiza?
Estive a ver a vossa página e pareceu-me um bom reflexo de grande actividade. Contudo, fiquei sem perceber em que ponto da fronteira
vocês se situam. Também me disponho, desde já a enviar-vos o meu filme e a dar uma master class ou mesmo um workshop sobre como realizar documentários com pouco dinheiro. Podem consultar a seguinte página .
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